Dia Internacional da Mulher

8, março, 2014 Sem comentários

Hoje, 8 de março, comemora-se o DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Não estou bem certo da origem dessa comemoração. Alguns alegam que a comemoração pelo dia internacional da mulher iniciou em homenagem às mulheres que morreram em um incêndio nos Estados Unidos da América, em virtude das más condições de segurança do edifício. Outros dizem que foram trabalhadoras que morreram queimadas em uma fábrica em Nova Iorque, após uma greve por melhores condições de trabalho. Já outros, alegam que a data surge em homenagem às mulheres russas que lutaram por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada da Rússia na primeira guerra mundial. E finalmente, alguns ainda associam a data à entrada da mulher no trabalho durante a revolução industrial, e em virtude das condições insalubres, os protestos eram frequentes, e os conflitos eram frequentes, com a morte e violência imposta a inúmeras mulheres trabalhadoras.

O fato é que, parece-me, o dia não seria de comemoração, mas de homenagens, e reflexões, e ações. Homenagens pelas inúmeras mulheres que morreram e continuam morrendo pelo simples fato de serem mulheres, sendo agredidas, violentadas e perseguidas covardemente. Reflexões sobre o papel histórico da mulher na formação de nossa sociedade, suas conquistas sociais, políticas e econômicas, e sua contribuição ao que somos hoje. Ações efetivas, dos poderes públicos e da sociedade, para extirparmos, de nossas entranhas, o preconceito e a inércia que nos silencia e nos cega diante da motivação da luta pelo que ainda sofre a mulher. Luta que não deve ser apenas dela, mas de todos nós, mulheres e homens, que queremos uma sociedade justa, digna, pacífica.

Celebrar? Homenagear? Sim. Mas comemorar também. Não podemos apenas lembrar de dores, pois não são só de dores que vive a mulher. Algumas se realizam enquanto mães, outras, enquanto trabalhadoras realizadas no que escolheram, e algumas poucas, como empresárias de sucesso. Mas todas se realizam apenas em sendo mulher. Parabéns, portanto, a todas as mulheres que se realizam aonde os seus sonhos se encontram com o que são. Parabéns à mulher que, independente da cor da pele, da condição social, da opção sexual, da opção religiosa, e de quaisquer outros elementos de diversidade, sente-se feliz, apenas por ser mulher!

 

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Originalmente publicado em meu perfil no Facebook, em 8 de março de 2013.

 

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Sobre a reportagem de Fernando Gabeira na cidade mais violenta do Brasil

24, fevereiro, 2014 Sem comentários

Eis a reportagem [muito superficial] de Fernando Gabeira, da GloboNews, exibida em 23/02/2014, sobre a violência que o Governo do Estado insiste em dizer que “não é bem assim”! Quem está na ponta e carece de segurança [PÚBLICA] é quem sabe… Lembrando que segurança pública não se resume apenas à garantia de policiamento nas ruas, mas toda uma política que garanta educação, saúde, trabalho, lazer, dentre outros princípios básicos (e que garantam menos polícia nas ruas!). E mais um detalhe: uma polícia que é temida pela própria população que deveria proteger, não é polícia! Deem o nome que quiserem…

 

Finalmente, resumir a violência no Estado de Alagoas ao “crack” seria cômico… não fosse tão trágico! Por isso mesmo, vou registrar a resposta do Cel. PM Marco Sampaio (do Centro de Ocorrências Sociais da PM), quando indagado pelo Gabeira:

GABEIRA: “A que o Sr. atribui o crescimento da violência em Maceió… com a sua experiência de policial?
SAMPAIO: “Eu atribuo principalmente à EXCLUSÃO SOCIAL, nosso Estado é um Estado onde A EDUCAÇÃO [ele] TEM OS PIORES NÍVEIS, em comparação com os outros Estados do país (…). A GENTE NÃO VÊ UMA GRANDE GERAÇÃO DE EMPREGO E RENDA“.

 

Nada mais a acrescentar do que já não sabemos!

 

Assista à reportagem clicando aqui.

 

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Substitutos (o filme)

24, fevereiro, 2014 Sem comentários

O ano é 2054. Os humanos não saem mais de casa… quer dizer, saem através de seus “substitutos”, que são robôs criados à sua semelhança ou à semelhança de seus mais íntimos desejos. De casa, eles controlam os seus robôs, que trabalham e vivem a sua vida e os seus relacionamentos. Os humanos, temendo doenças e, mais ainda, as relações, enfurnaram-se em casa e não vivem mais, apenas “vegetam”.

Substitutos (“Surrogates”), 2009.

Falo do filme que assisti [e novamente] neste final de domingo. O filme é “Substitutos” (“Surrogates”), de 2009, estrelado por Bruce Willis e Radha Mitchell e dirigido por Jonathan Mostow. Aliás, considero um dos melhores filmes de Bruce Willis, onde atua como um policial que investiga uma sequência de crimes inimagináveis.

 

O filme é muito bom e tem uma excelente temática, que é muito bem trabalhada ao longo da estória. Provoca uma necessária reflexão para os dias atuais; de certa forma ele trata da busca [equivocada] pela perfeição e também da forma encontrada para expressar os desejos mais reprimidos.

 

Recomendo!

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Surpresas na atuação docente

13, fevereiro, 2014 Sem comentários

O que é ser professor? Sempre que me ocorre tal questionamento (e não é nenhuma crise existencial!), costumo referir-me a um excerto de um livro de Paulo Freire, intitulado “Pedagogia da Autonomia”. Parece-me que Freire, nestas palavras, consegue alcançar um pouco das necessidades que se exige de um profissional que assim se assume. E acabo usando as reflexões de Freire como referência para conseguir cumprir e assumir bem o meu papel enquanto professor, embora considere que me encontre ainda distante de tal ideação, numa incompletude premente.

Contudo, antes de apresentar as palavras de Freire, lembrei-me igualmente de Maurice Tardif e Claude Lessard, na obra “O trabalho docente”. Ali, quando tratam de alguns dilemas enfrentados por este profissional, colocando-nos diante de questionamentos como “onde termina a sua tarefa? O que ele pode fazer para ajudar e apoiar seus alunos? Até onde pode ele ir?” (1); são dilemas que lembram ao sujeito professor que ele é um ser humano, tão sensível ao meio e aos que o cercam quanto os seus alunos, tão relacional quanto eles, e em igual processo de necessária aprendizagem do mundo que o cerca. Um pouco mais adiante os autores sugerem que, portanto, “ensinar é confrontar-se com problemas e dilemas éticos que se tornam ainda mais delicados quando se encontram num contexto de relações face a face” (2). O que é uma verdade, diria, axiológica.

 

Ainda não satisfeitos, Tardif e Lessard nos questionam (meio que nos respondendo): “Quais são os desafios, as significações e as consequências decorrentes do fato de seu objeto de trabalho cotidiano corresponder a seres humanos com os quais instauram relações de diversas modalidades: profissionais, pessoais, afetivas, sociais, culturais, de linguagem, etc. Como professores enxergam os alunos e as relações que estabelecem com eles?” (3). Os desafios são inúmeros, na medida em que cada sujeito constitui-se em um mundo próprio e uma identidade singular; as significações, não menos; as consequências… são inevitáveis quando nos relacionamos com seres que pensam, sentem, reagem; não dá simplesmente para “passar” entre eles, mas pensar, sentir e reagir com e para eles.

 

Finalmente, e encerrando os excertos de Tardif e Lessard, é oportuno lembrar uma passagem onde os autores nos colocam de frente à profissão docente: “Profissão impossível, dizia Freud a respeito da educação; certo, mas ensinar é também a mais bela profissão do mundo: todos aqueles que a exerceram o podem confirmar.” (4). E como é bela! Como nos realiza e nos encanta, quando estamos dispostos a perceber os [nem sempre sutis] avanços mútuos e as contribuições de que fazemos parte. Parece “clichê” quando dizemos que “aprendemos muito com nossos estudantes”, mas àquele que se coloca verdadeiramente como professor, é inevitável não crescer e evoluir, aperfeiçoar-se enquanto profissional e, mais ainda, como ser humano. Não dá para ser o mesmo após o contato frequente com outros seres humanos em um espaço tão privilegiado como o de uma sala de aula.

E neste contexto, e “somente” por isso, sinto-me feliz e realizado após dez anos ininterruptos lecionando na Universidade Estadual de Alagoas, a nossa Uneal. E com a proximidade do encerramento do atual período letivo, só tenho a agradecer aos alunos e alunas, sujeitos singulares e com seus mundos e desejos próprios, com o seu pensar, o seu sentir, o seu reagir; e pela oportunidade de convivência durante este período que se encerra. Aos meus queridos e queridas estudantes de zootecnia, pela oportunidade da convivência harmoniosa. Aos meus queridos e queridas estudantes de pedagogia, pela oportunidade de agradáveis momentos de troca e mútuo aprendizado, em especial a Gilk Abreu, Carla Melo e Edivânia Alves, pela carinhosa expressão com que me tocaram profundamente, a ponto de me provocarem, não sem muita emoção, a materialização desta simplória reflexão, tomando como base e fazendo-me recordar grandes mestres como Freire, Tardif e Lessard. Compartilho, ainda, imagens do presente com que fui agraciado por estes estudantes, cujo símbolo a poeira e o tempo poderão apagar e danificar, mas as palavras e o seu significado o coração e o sentimento jamais me trairão, jamais me ocultarão as lembranças carinhosas das relações oriundas desta profissão, que antes de tudo é relacional e emocional.

 

Já dizia Antoine de Saint-Exupery, em sua obra “O pequeno príncipe”: “_ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. (…) _ Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…”. (5)

 

Finalmente, eis o texto a que me referi, de Paulo Freire, no seu livro “Pedagogia da Autonomia” (6):

 

Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.

Assim como não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina não posso, por outro lado, reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica. Tão importante quanto ele, o ensino dos conteúdos, é o meu testemunho ético ao ensiná-los. É a decência com que o faço. É preparação científica revelada sem arrogância, pelo contrário, com humildade. É o respeito jamais negado ao educando, a seu saber de ‘experiência feito’ que busco superar com ele. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço. É importante que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência. É preciso também que este esforço seja de quando em vez discutido na classe. Há situações em que a conduta da professora pode parecer aos alunos contraditória. Isto se dá quase sempre quando o professor simplesmente exerce sua autoridade na coordenação das atividades na classe e parece aos alunos que ele, o professor, exorbitou de seu poder. Às vezes, é o próprio professor que não está certo de ter realmente ultrapassado o limite de sua autoridade ou não.

 

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REFERÊNCIAS:

1.TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. 4ª.ed., Petrópolis: Vozes, 2008. p.70.

2.Id., Ibid., p.71.

3.Id., Ibid., p.141.

4.Id., Ibid., p.151.

5.SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe (com aquarelas do autor). 48.ed., 43. reimp. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p.72.

6.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 7ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 115-117. (Coleção Leitura).

 

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O que se revela quando se diz¹

8, fevereiro, 2014 Sem comentários

Quando falamos ou escrevemos revelamos de onde somos, em que época vivemos e qual o nosso universo social.

Texto de Eduardo Calbucci²
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A língua, na maioria das vezes, oferece-nos várias possibilidades para dizer praticamente as mesmas coisas. Escolher a forma mais adequada para cada situação, cotejar usos, comparar registros, sempre tendo em mente a riqueza dos processos de variação linguística, é (ou deveria ser) preocupação de todos os falantes, sob o risco de a intercompreensão e a eficiência de comunicação se perderem.

O “ultrapassado” – ao menos em grande parte do universo acadêmico – discurso do certo x errado, fundamentado numa dicotomia tão rígida quanto equivocada, desconsidera que a língua, como sistema que é, merece ser tomada mais como um objeto de estudo do que como um pretexto para normatizações frágeis e, muitas vezes, preconceituosas.

Por exemplo: quando, no começo dos anos 50, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira compuseram um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, o baião Asa branca, alguns puristas podem ter ficado incomodados com o final da quarta estrofe da canção: “Espero a chuva cair de novo / Pra mim voltá pro meu sertão” [grifo nosso]. Afinal, o uso do pronome oblíquo “mim” na posição de sujeito vai de encontro às prescrições dos normativistas, que apregoam o emprego do pronome reto (eu) numa construção como essa.

As explicações sintáticas para essa prescrição vão das mais finas (os pronomes pessoais em português mantêm resquícios da flexão de caso do latim e, por isso, são grafados diferentemente de acordo com sua função sintática) às mais insólitas (todos já ouvimos o descabido “mim não faz nada” ou o politicamente incorreto e descabido “mim é índio”). O fato é que, por mais que haja quem condene o “mim” como sujeito, esse uso não se deixou abalar e continua afirmando sua existência nas ruas.

Manuel Bandeira chegou mesmo a dizer que não havia nada mais “gostoso” do que usar o mim como sujeito de verbo no infinito. Para ele, a expressão “pra mim brincar” deveria ser usada por todos os brasileiros. Em que pese sua filiação modernista, que o levava a prestigiar as variantes populares da língua, até mesmo como reação aos beletrismos de parte da literatura brasileira da virada do século XIX para o século XX, é de elogiar sua percepção aguçada de fenômenos de língua, que o faz privilegiar a espontaneidade em detrimento da “correção”.

A tese de Bandeira é plenamente adequada para explicar o uso dos pronomes em Asa branca. Na canção, o emprego de “eu” no lugar de “mim” tornaria o texto incoerente. O narrador de Asa branca é um retirante que foge da seca. Assim, para aumentar o efeito de “verdade” do texto, optou-se por uma variedade linguística compatível com o universo social desse narrador.

Linguistas de todas as épocas reconhecem que, quando falamos ou escrevemos, dizemos mais do que imaginamos. Na verdade, revelamos de onde somos, em que época vivemos, qual o nosso universo social, como queremos nos relacionar com nossos interlocutores. Isso se dá porque a língua não é neutra; ela encerra valores, crenças, ideologias. É por esse motivo que uma simples escolha lexical pode ter mais peso do que supúnhamos.

Veja-se o caso dos vocativos. Ao referirmo-nos aos nossos interlocutores, interpelando-os diretamente, podemos empregar as mais variadas formas de tratamento: doutorsenhormoçoamigocompanheirocamaradarapazparceiro,manogajomeu irmãoguri, quase todas com suas respectivas flexões femininas. Os exemplos são infindáveis. Acontece que cada forma de tratamento revela muito mais do que se imagina: um “doutor” numa conversa cotidiana pode ser irônico; um “gajo” numa aula de literatura, uma homenagem a Portugal; um “mano” no Rio de Janeiro, uma brincadeira com o falar de São Paulo; um “camarada” num encontro partidário, uma filiação ideológica. Nada é neutro.

Daí, o aforismo do filósofo austríaco Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Quanto maior é a consciência dos falantes sobre essas questões, maior é sua capacidade de controlar, ainda que parcialmente, o que se revela quando se diz.

 

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¹Texto extraído da Seção Ortografia também é gente, na página na Internet da Revista Pessoa  - Revista de Literatura Lusófona. Pode-se acessar o artigo publicado nesta Revista clicando-se aqui.

²Eduardo Calbucci é mestre e doutor em Linguística pela USP. É professor da USP e consultor do Núcleo Educativo da TV Cultura.

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