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Arquivo de março, 2010

Não há conquista sem luta¹

31, março, 2010 Sem comentários

O homem bárbaro não curva a cabeça ao jugo que o homem civilizado carrega sem murmurar e prefere a mais tumultuada liberdade a uma sujeição tranqüila. Portanto, não é pelo aviltamento dos povos escravizados que se devem julgar as disposições naturais do homem a favor ou contra a servidão, mas pelos prodígios que todos os povos livres fizeram para escapar da opressão.² (Jean-Jacques ROUSSEAU)

Na noite anterior, enquanto participava da Assembléia dos Docentes da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, que tratava sobre a greve que se arrastava por quase cinco meses – precisamente quatro meses e dezenove dias – lembrei-me do trecho acima, de autoria do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Senti que nós, docentes e discentes “subversivos” que empreendemos essa luta contrária aos desejos de nossos gestores, nos assemelhamos sobremaneira ao homem bárbaro descrito pelo filósofo. Diante de uma aparente e inquietante tranqüilidade, optamos por não nos curvarmos ao jugo das forças conservadoras e retrógradas que se encontram enraizadas nas esferas de poder de nosso Estado de Alagoas e suas instituições.

Nós, professores, fomos [ingenuamente] acusados até de mercenários, quando defendíamos nossos direitos ultrajados e vilipendiados por nossos “legítimos” mandatários, que ali foram colocados para lutarem pelo direito de seu povo, e não contra ele. O próprio Rousseau já nos advertia que “é incontestável – e é a máxima fundamental de todo direito político – que os povos se deram chefes para defender sua liberdade, e não para escravizá-los”³. E foi por entendermos isso que empreendemos uma luta contrária àqueles que nos pretendiam escravizar. Da inércia fomos à ação. Da neutralidade à posição política do confronto. E aí surge Paulo Freire, educador brasileiro, quando trata com muita propriedade do tema:

Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? “Lavar as mãos” em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele. Como posso ser neutro diante da situação, não importa qual seja ela, em que o corpo das mulheres e dos homens vira puro objeto de espoliação e de descaso?4 (Paulo FREIRE)

Não poderíamos em hipótese alguma permanecer incólumes, por inertes. Tínhamos sim o dever moral de lutar pelo que entendíamos certo, embora correndo o risco de conseqüências incômodas. Assumimos os riscos e empreendemos tal luta. E hoje vemos perspectivas para a nossa UNEAL, para o ensino público estadual superior, para a sociedade que dela necessita e exige. E retornando às questões salariais, imputar-nos a pecha de mercenários, é no mínimo injusto, perpassando pela ingenuidade, puerilidade, ignorância e parvoíce. E aqui retomo palavras de Paulo Freire que muito claramente expressa seu pensamento acerca dessa questão que deve ser motivo de orgulho ao ser tratado pela classe trabalhadora, jamais de acabrunhamento. Diz-nos o educador:

Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Não é algo que vem de fora da atividade docente, mas algo que dela faz parte. O combate em favor da dignidade da prática docente é tão parte dela mesma quanto dela faz o respeito que o professor deve ter à identidade do educando, à sua pessoa, a seu direito de ser. Um dos piores males que o poder público vem fazendo a nós, no Brasil, historicamente, desde que a sociedade brasileira foi criada, é o de fazer muitos de nós corrermos o risco de, a custo de tanto descaso pela educação publica, existencialmente cansados, cair no indiferentismo fatalistamente cínico que leva ao cruzamento dos braços. “Não há o que fazer” é o discurso acomodado que não podemos aceitar.5 (Paulo FREIRE)

Nossas conquistas, enfim, e nas palavras de Rousseau, são os prodígios que fizemos para escapar da opressão, e os fizemos muito bem. Parabéns aos docentes e discentes que empreenderam essa luta, que nos enobreceu e nos fortaleceu o ânimo para continuarmos com nosso objetivo maior: transformar a UNEAL em uma universidade que mereça esse status e o respeito de toda a sociedade. O que depende em grande parte de nós, que fazemos parte dela. Para isso, uma nova fase se inicia com o fim da greve, já que deixamos de lado as questões internas para concentrarmos energia nessa luta. Agora, após esses meses de paciente e necessário aprendizado, é aguardar para ver e investir em nossa capacidade de mudar o que aí está posto e o que foi desnudado em todo esse processo. E como “não há conquista sem luta”¹, e como toda luta nos amadurece, nos fortalece e nos faz diferentes, seremos mais críticos, mais exigentes. Não seremos, portanto, os mesmos de antes da greve. O que já é outra conquista!

Maceió, 28 de janeiro de 2009.

Autor: Wellyngton Chaves Monteiro da Silva
Internet: http://mundobr.pro.br/uneal

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1. Slogan do Sindicato dos Docentes da UNEAL para este final de greve, conclamando-nos a todos pela luta constante por nossos direitos, e nos lembrando que somente nossa luta nos trouxe as conquistas que hoje [ingenuamente] comemoramos.
2. ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução de Paulo Neves, Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 100. (Ensaio originalmente publicado em 1755, por Marc-Michel Rey, livreiro e editor em Amsterdã).
3. ROUSSEAU, J. J. Idem, p. 99.
4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 7ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 126. (Coleção Leitura).
5. FREIRE, Paulo. Idem, p.73.

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Educação e gestão democrática.

31, março, 2010 Sem comentários

A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 206, afirma textualmente que o ensino será ministrado com base em alguns princípios, e dentre eles, em seu inciso VI, temos o da “gestão democrática do ensino público, na forma da lei”. A lei a qual se refere o texto, somente veio a tomar forma em 1996, com a sanção pelo Presidente da República, da Lei nº 9.394/96, que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”. Esta lei corrobora com a constituição, e não poderia ser diferente, em seu inciso VIII do artigo 3º, quando diz que, entre outros, o ensino será ministrado com base no princípio da “gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino”. Aqui é interessante registrar que, em nenhum dos artigos desta lei ou em outra, existe menção de que a gestão democrática dar-se-ia através de eleição direta para os gestores de instituições de ensino. Diz apenas “gestão democrática do ensino público”. Mas muitos confundem e teimam em afirmar que gestão democrática é simplesmente ter eleição direta para os gestores da instituição. E o lamentável é que isso ocorra em instituições de ensino, que trabalham, portanto, com educação.

José Gimeno Sacristán, em seu texto “O que é uma escola para a democracia?”, publicado na Revista Pátio (ano 3, nº 10, ago./out. 1999, p. 57-62), diz, textualmente, que

A democracia também possui uma dimensão educativa (…), cabendo entendê-la como participação nos mais variados âmbitos da vida social, porque assim os cidadãos exercitam-se como tais, envolvem-se, são ativos, responsabilizam-se e podem resgatar para a vida civil a gestão de assuntos que não devem ser deixados, pelo menos não na sua totalidade, à mercê das decisões de representantes delegados ou das burocracias que existem em qualquer organização que tenha um pouco de história.


E um pouco antes, Marlou Zanelli Pellegrini e Eliane da Silva Gschwenter, em seu artigo “A nova escola pública”, de 1997 (Revista Gestão em Rede, Curitiba: PUC-PR, n.1, p.7-14, set. 1997), faz a seguinte ressalva:

Quando se fala em gestão democrática, é preciso entendê-la como uma nova maneira de administrar a escola; é necessário vislumbrar um novo paradigma com pressupostos, idéias, fundamentos que sustentem e orientem essa ação; é imprescindível compreender o que significa autonomia, descentralização, participação; é preciso, enfim, mudar a mentalidade e a ação e, com paixão, acreditar na possibilidade de construção de uma nova escola.


Sendo assim, para sermos democráticos é necessário que promovamos mudanças, inicialmente na forma de pensar as relações, e na forma como agimos e lidamos com tudo o que é coletivo, público. Ser democrático é confiar nas possibilidades dos indivíduos e da sociedade, que se aperfeiçoam e não se contentam com o que está, mas sempre esperam mais, contribuindo para que o cenário vigente se modifique, e para melhor. Ser democrático, ainda, é estimular o desenvolvimento individual e social, respeitando e dando espaço às diferenças, escutando, participando, atuando, interferindo, e sempre pensando na coletividade.

Democracia, enfim, não é uma técnica cheia de regrinhas as quais, uma vez seguidas, levariam à consecução dos objetivos por ela preceituados. Democracia é um processo e parte da concepção que temos dela. Resulta de nossas experiências e compreensão da vida e do conceito de liberdade; é o exercício e vivência, em todos os aspectos de nossa vida em sociedade, daquilo que acreditamos sê-la. Democracia não é eleição direta; mesmo porque a eleição direta tem gerado muitos ditadorzinhos que, patrimonialistas, afirmam-se “donos” de seus cargos, e que crêem serem legitimados por essa que é apenas uma das ferramentas da democracia: o voto direto. Democracia, aos desavisados, e aqui repetimos, é participação, colaboração, fiscalização e transparência com tudo o que é público ou coletivo. E finalmente, gestão democrática é todo um conjunto de atividades que trabalham nessa direção. E cabe às instituições de ensino o desenvolvimento e aplicação de conceitos como cidadania, participação, direitos e deveres, descentralização de poderes, consciência crítica, entre outros, para que todos possam, efetivamente, participar da construção da democracia em todas as esferas, principalmente fora da escola, na vida pública, em sociedade. E a escola tem a obrigação moral de dar o exemplo, nas discussões e, sobretudo, cotidianamente no exercício de sua práxis.

Maceió, 14 de junho de 2008.
Autor: Wellyngton Chaves Monteiro da Silva
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Comitê de instalação da Editora da UNEAL

30, março, 2010 Comments off

A Magnífica Reitora Laudirege Fernandes Lima, da Universidade Estadual de Alagoas, nomeou os Docentes Jairo José Campos da Costa (Campus V – União dos Palmares), Márcio Ferreira da Silva (Campus IV – São Miguel dos Campos) e Wellyngton Chaves Monteiro da Silva (Campus II – Santana do Ipanema) para, sob a presidência do primeiro, comporem o Comitê de Instalação da Editora Universidade Estadual de Alagoas. Com isso, a UNEAL poderá organizar suas próprias publicações (livros, revistas etc.).

A Portaria nº 016/2010 – REITORIA, de que trata a nomeação, fora publicada no Diário Oficial do Estado de Alagoas em 11 de março de 2010.

Regimento Interno do Campus II

30, março, 2010 Comments off

O Professor José Crisólogo de Sales Silva, Diretor do Campus II, e de acordo com decisão do Conselho de Campus em sua primeira reunião do ano, constituiu a Comissão para elaboração da minuta do Regimento Interno do Campus II da UNEAL (Portaria nº 001/2010, de 9 de fevereiro de 2010), constituída por três Conselheiros, o Discente Israel Gomes de Amorim Santos e os Professores Carlindo de Lira Pereira e Wellyngton Chaves Monteiro da Silva, sendo este último, o Presidente da Comissão.

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A violência dos “desprotegidos”

29, março, 2010 Sem comentários
Tem cerca de duas horas, estava chegando na escola para apanhar meu filho. Em um cruzamento, aglomeravam-se pessoas ao redor de uma casa abandonada que ficava na esquina da quadra à minha direita. Tentei entender o que estava acontecendo, pois até os carros que estavam à minha frente não andavam e estavam todos de olhos atentos como a esperar por algo. De repente irrompeu um pavoroso grito que vinha do interior da casa e atravessava a rua. Seguindo-se aos gritos, desesperadamente corria um garoto que fora contido pelos portões cerrados da casa. A horda de jovens bem nutridos e arrumados lançou o garoto ao chão com socos e pontapés, alguns praticamente saltando covardemente sobre um garoto indefeso, que aparentava ter seus 13, 14 anos. Por aí! “É ladrão, é ladrão”, gritavam. E a violência insana – se é que existe alguma que não a seja – não conseguia silenciar o garoto, que esganiçava pavorosa e dolorosa dor.

A esta altura sentia o sistema nervoso afetado, e à minha mente somente sobressaía a imagem de meu filho, ainda pequeno, a quem dedico meus cuidados e por quem tenho enorme zelo e atenção. E as perguntas me atormentavam insistentemente: Quem defenderia aquele garoto? Quem lhe trataria os ferimentos? Quem lhe enxugaria as lágrimas e o consolaria na noite que se aproximava? E quem lhe afastaria dos “maus” que o agrediam? O que ele fizera para merecer tamanha brutalidade e despertar a bestialidade camuflada daqueles jovens? A dor que irrompia não partia do coração, mas d’alma.

Ao mesmo tempo, via aqueles jovens valorosos que, “valentes”, e em número, tamanho e força infinitamente superiores sobrepujavam aquela criatura visivelmente destroçada – fisicamente, moralmente, socialmente, espiritualmente. E me perguntava onde estavam esses jovens tão fortes, “corajosos” e “conscientes” quando inúmeros políticos e empresários de nosso Estado e de nosso País eram presos por desvios milionários, comprometendo a saúde de milhões de pessoas. Se foram tão duros com quem lhes roubara algumas migalhas e alguns trocados, certamente seriam impiedosos com quem lhes roubara milhões, deixando à míngua um Estado tão miserável e carente quanto o nosso. Mas aí, quanta ingenuidade a minha, lembrei-me que os mesmos que sempre dilapidaram nosso Estado e nossa Nação continuam seguindo livres, incólumes, reempossados pela mesma horda que se vê no direito de agredir uma criança indefesa, em nome de uma raiva incontida que somente deságua em quem já vive uma condenação de vida. Não sei o que o garoto fizera, apenas sei pelos gritos da horda que era ladrão. Mas a ninguém é dado o direito de extravasar suas mágoas, recalques e decepções em quem lhe está abaixo. Ao mais forte é dado o dever de proteger o mais fraco, e não humilhá-lo e espezinhá-lo mais ainda do que já é pela sociedade que lho deveria amparar. A revolta dos que se sentem desprotegidos sempre atinge aos desprotegidos da sociedade.

Sei que me levou algum tempo para movimentar as energias geradas no calor daquele acontecimento. Mas a vida continua, para mim, para os jovens, para o garoto e toda a sociedade, que sequer soube do acontecimento. E se soubesse, daria de braços, pois seria apenas mais um. Ou menos um, dependendo do contexto. E fico eu aqui a olhar meu filho e pensando que poderia ser ele a estar ali, na horda, ou assistindo do carro, ou da calçada, ou encolhido e desprotegido, gritando por quem lhe estenda as mãos para socorrê-lo, enquanto os socos e pontapés lhe são desferidos. Entre a loucura e a sanidade existe uma linha muito tênue, e não é muito diferente entre o ter algo e o ter nada. Pensemos nisso antes de desferirmos nossos golpes ou nossas “convicções” incertas, forjadas muitas vezes no calor da emoção e da ausência da razão e de sentimentos equilibrados.

Maceió, 16 de outubro de 2008.
 
Autor: Wellyngton Chaves Monteiro da Silva
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