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Não há conquista sem luta¹

O homem bárbaro não curva a cabeça ao jugo que o homem civilizado carrega sem murmurar e prefere a mais tumultuada liberdade a uma sujeição tranqüila. Portanto, não é pelo aviltamento dos povos escravizados que se devem julgar as disposições naturais do homem a favor ou contra a servidão, mas pelos prodígios que todos os povos livres fizeram para escapar da opressão.² (Jean-Jacques ROUSSEAU)

Na noite anterior, enquanto participava da Assembléia dos Docentes da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, que tratava sobre a greve que se arrastava por quase cinco meses – precisamente quatro meses e dezenove dias – lembrei-me do trecho acima, de autoria do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Senti que nós, docentes e discentes “subversivos” que empreendemos essa luta contrária aos desejos de nossos gestores, nos assemelhamos sobremaneira ao homem bárbaro descrito pelo filósofo. Diante de uma aparente e inquietante tranqüilidade, optamos por não nos curvarmos ao jugo das forças conservadoras e retrógradas que se encontram enraizadas nas esferas de poder de nosso Estado de Alagoas e suas instituições.

Nós, professores, fomos [ingenuamente] acusados até de mercenários, quando defendíamos nossos direitos ultrajados e vilipendiados por nossos “legítimos” mandatários, que ali foram colocados para lutarem pelo direito de seu povo, e não contra ele. O próprio Rousseau já nos advertia que “é incontestável – e é a máxima fundamental de todo direito político – que os povos se deram chefes para defender sua liberdade, e não para escravizá-los”³. E foi por entendermos isso que empreendemos uma luta contrária àqueles que nos pretendiam escravizar. Da inércia fomos à ação. Da neutralidade à posição política do confronto. E aí surge Paulo Freire, educador brasileiro, quando trata com muita propriedade do tema:

Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? “Lavar as mãos” em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele. Como posso ser neutro diante da situação, não importa qual seja ela, em que o corpo das mulheres e dos homens vira puro objeto de espoliação e de descaso?4 (Paulo FREIRE)

Não poderíamos em hipótese alguma permanecer incólumes, por inertes. Tínhamos sim o dever moral de lutar pelo que entendíamos certo, embora correndo o risco de conseqüências incômodas. Assumimos os riscos e empreendemos tal luta. E hoje vemos perspectivas para a nossa UNEAL, para o ensino público estadual superior, para a sociedade que dela necessita e exige. E retornando às questões salariais, imputar-nos a pecha de mercenários, é no mínimo injusto, perpassando pela ingenuidade, puerilidade, ignorância e parvoíce. E aqui retomo palavras de Paulo Freire que muito claramente expressa seu pensamento acerca dessa questão que deve ser motivo de orgulho ao ser tratado pela classe trabalhadora, jamais de acabrunhamento. Diz-nos o educador:

Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Não é algo que vem de fora da atividade docente, mas algo que dela faz parte. O combate em favor da dignidade da prática docente é tão parte dela mesma quanto dela faz o respeito que o professor deve ter à identidade do educando, à sua pessoa, a seu direito de ser. Um dos piores males que o poder público vem fazendo a nós, no Brasil, historicamente, desde que a sociedade brasileira foi criada, é o de fazer muitos de nós corrermos o risco de, a custo de tanto descaso pela educação publica, existencialmente cansados, cair no indiferentismo fatalistamente cínico que leva ao cruzamento dos braços. “Não há o que fazer” é o discurso acomodado que não podemos aceitar.5 (Paulo FREIRE)

Nossas conquistas, enfim, e nas palavras de Rousseau, são os prodígios que fizemos para escapar da opressão, e os fizemos muito bem. Parabéns aos docentes e discentes que empreenderam essa luta, que nos enobreceu e nos fortaleceu o ânimo para continuarmos com nosso objetivo maior: transformar a UNEAL em uma universidade que mereça esse status e o respeito de toda a sociedade. O que depende em grande parte de nós, que fazemos parte dela. Para isso, uma nova fase se inicia com o fim da greve, já que deixamos de lado as questões internas para concentrarmos energia nessa luta. Agora, após esses meses de paciente e necessário aprendizado, é aguardar para ver e investir em nossa capacidade de mudar o que aí está posto e o que foi desnudado em todo esse processo. E como “não há conquista sem luta”¹, e como toda luta nos amadurece, nos fortalece e nos faz diferentes, seremos mais críticos, mais exigentes. Não seremos, portanto, os mesmos de antes da greve. O que já é outra conquista!

Maceió, 28 de janeiro de 2009.

Autor: Wellyngton Chaves Monteiro da Silva
Internet: http://mundobr.pro.br/uneal

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1. Slogan do Sindicato dos Docentes da UNEAL para este final de greve, conclamando-nos a todos pela luta constante por nossos direitos, e nos lembrando que somente nossa luta nos trouxe as conquistas que hoje [ingenuamente] comemoramos.
2. ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução de Paulo Neves, Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 100. (Ensaio originalmente publicado em 1755, por Marc-Michel Rey, livreiro e editor em Amsterdã).
3. ROUSSEAU, J. J. Idem, p. 99.
4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 7ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 126. (Coleção Leitura).
5. FREIRE, Paulo. Idem, p.73.

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