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Arquivo de 13, fevereiro, 2014

Surpresas na atuação docente

13, fevereiro, 2014 Sem comentários

O que é ser professor? Sempre que me ocorre tal questionamento (e não é nenhuma crise existencial!), costumo referir-me a um excerto de um livro de Paulo Freire, intitulado “Pedagogia da Autonomia”. Parece-me que Freire, nestas palavras, consegue alcançar um pouco das necessidades que se exige de um profissional que assim se assume. E acabo usando as reflexões de Freire como referência para conseguir cumprir e assumir bem o meu papel enquanto professor, embora considere que me encontre ainda distante de tal ideação, numa incompletude premente.

Contudo, antes de apresentar as palavras de Freire, lembrei-me igualmente de Maurice Tardif e Claude Lessard, na obra “O trabalho docente”. Ali, quando tratam de alguns dilemas enfrentados por este profissional, colocando-nos diante de questionamentos como “onde termina a sua tarefa? O que ele pode fazer para ajudar e apoiar seus alunos? Até onde pode ele ir?” (1); são dilemas que lembram ao sujeito professor que ele é um ser humano, tão sensível ao meio e aos que o cercam quanto os seus alunos, tão relacional quanto eles, e em igual processo de necessária aprendizagem do mundo que o cerca. Um pouco mais adiante os autores sugerem que, portanto, “ensinar é confrontar-se com problemas e dilemas éticos que se tornam ainda mais delicados quando se encontram num contexto de relações face a face” (2). O que é uma verdade, diria, axiológica.

 

Ainda não satisfeitos, Tardif e Lessard nos questionam (meio que nos respondendo): “Quais são os desafios, as significações e as consequências decorrentes do fato de seu objeto de trabalho cotidiano corresponder a seres humanos com os quais instauram relações de diversas modalidades: profissionais, pessoais, afetivas, sociais, culturais, de linguagem, etc. Como professores enxergam os alunos e as relações que estabelecem com eles?” (3). Os desafios são inúmeros, na medida em que cada sujeito constitui-se em um mundo próprio e uma identidade singular; as significações, não menos; as consequências… são inevitáveis quando nos relacionamos com seres que pensam, sentem, reagem; não dá simplesmente para “passar” entre eles, mas pensar, sentir e reagir com e para eles.

 

Finalmente, e encerrando os excertos de Tardif e Lessard, é oportuno lembrar uma passagem onde os autores nos colocam de frente à profissão docente: “Profissão impossível, dizia Freud a respeito da educação; certo, mas ensinar é também a mais bela profissão do mundo: todos aqueles que a exerceram o podem confirmar.” (4). E como é bela! Como nos realiza e nos encanta, quando estamos dispostos a perceber os [nem sempre sutis] avanços mútuos e as contribuições de que fazemos parte. Parece “clichê” quando dizemos que “aprendemos muito com nossos estudantes”, mas àquele que se coloca verdadeiramente como professor, é inevitável não crescer e evoluir, aperfeiçoar-se enquanto profissional e, mais ainda, como ser humano. Não dá para ser o mesmo após o contato frequente com outros seres humanos em um espaço tão privilegiado como o de uma sala de aula.

E neste contexto, e “somente” por isso, sinto-me feliz e realizado após dez anos ininterruptos lecionando na Universidade Estadual de Alagoas, a nossa Uneal. E com a proximidade do encerramento do atual período letivo, só tenho a agradecer aos alunos e alunas, sujeitos singulares e com seus mundos e desejos próprios, com o seu pensar, o seu sentir, o seu reagir; e pela oportunidade de convivência durante este período que se encerra. Aos meus queridos e queridas estudantes de zootecnia, pela oportunidade da convivência harmoniosa. Aos meus queridos e queridas estudantes de pedagogia, pela oportunidade de agradáveis momentos de troca e mútuo aprendizado, em especial a Gilk Abreu, Carla Melo e Edivânia Alves, pela carinhosa expressão com que me tocaram profundamente, a ponto de me provocarem, não sem muita emoção, a materialização desta simplória reflexão, tomando como base e fazendo-me recordar grandes mestres como Freire, Tardif e Lessard. Compartilho, ainda, imagens do presente com que fui agraciado por estes estudantes, cujo símbolo a poeira e o tempo poderão apagar e danificar, mas as palavras e o seu significado o coração e o sentimento jamais me trairão, jamais me ocultarão as lembranças carinhosas das relações oriundas desta profissão, que antes de tudo é relacional e emocional.

 

Já dizia Antoine de Saint-Exupery, em sua obra “O pequeno príncipe”: “_ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. (…) _ Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…”. (5)

 

Finalmente, eis o texto a que me referi, de Paulo Freire, no seu livro “Pedagogia da Autonomia” (6):

 

Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.

Assim como não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina não posso, por outro lado, reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica. Tão importante quanto ele, o ensino dos conteúdos, é o meu testemunho ético ao ensiná-los. É a decência com que o faço. É preparação científica revelada sem arrogância, pelo contrário, com humildade. É o respeito jamais negado ao educando, a seu saber de ‘experiência feito’ que busco superar com ele. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço. É importante que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência. É preciso também que este esforço seja de quando em vez discutido na classe. Há situações em que a conduta da professora pode parecer aos alunos contraditória. Isto se dá quase sempre quando o professor simplesmente exerce sua autoridade na coordenação das atividades na classe e parece aos alunos que ele, o professor, exorbitou de seu poder. Às vezes, é o próprio professor que não está certo de ter realmente ultrapassado o limite de sua autoridade ou não.

 

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REFERÊNCIAS:

1.TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. 4ª.ed., Petrópolis: Vozes, 2008. p.70.

2.Id., Ibid., p.71.

3.Id., Ibid., p.141.

4.Id., Ibid., p.151.

5.SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe (com aquarelas do autor). 48.ed., 43. reimp. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p.72.

6.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 7ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 115-117. (Coleção Leitura).

 

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