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Arquivo da Categoria ‘Temática especial’

Sobre a reportagem de Fernando Gabeira na cidade mais violenta do Brasil

24, fevereiro, 2014 Sem comentários

Eis a reportagem [muito superficial] de Fernando Gabeira, da GloboNews, exibida em 23/02/2014, sobre a violência que o Governo do Estado insiste em dizer que “não é bem assim”! Quem está na ponta e carece de segurança [PÚBLICA] é quem sabe… Lembrando que segurança pública não se resume apenas à garantia de policiamento nas ruas, mas toda uma política que garanta educação, saúde, trabalho, lazer, dentre outros princípios básicos (e que garantam menos polícia nas ruas!). E mais um detalhe: uma polícia que é temida pela própria população que deveria proteger, não é polícia! Deem o nome que quiserem…

 

Finalmente, resumir a violência no Estado de Alagoas ao “crack” seria cômico… não fosse tão trágico! Por isso mesmo, vou registrar a resposta do Cel. PM Marco Sampaio (do Centro de Ocorrências Sociais da PM), quando indagado pelo Gabeira:

GABEIRA: “A que o Sr. atribui o crescimento da violência em Maceió… com a sua experiência de policial?
SAMPAIO: “Eu atribuo principalmente à EXCLUSÃO SOCIAL, nosso Estado é um Estado onde A EDUCAÇÃO [ele] TEM OS PIORES NÍVEIS, em comparação com os outros Estados do país (…). A GENTE NÃO VÊ UMA GRANDE GERAÇÃO DE EMPREGO E RENDA“.

 

Nada mais a acrescentar do que já não sabemos!

 

Assista à reportagem clicando aqui.

 

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Surpresas na atuação docente

13, fevereiro, 2014 Sem comentários

O que é ser professor? Sempre que me ocorre tal questionamento (e não é nenhuma crise existencial!), costumo referir-me a um excerto de um livro de Paulo Freire, intitulado “Pedagogia da Autonomia”. Parece-me que Freire, nestas palavras, consegue alcançar um pouco das necessidades que se exige de um profissional que assim se assume. E acabo usando as reflexões de Freire como referência para conseguir cumprir e assumir bem o meu papel enquanto professor, embora considere que me encontre ainda distante de tal ideação, numa incompletude premente.

Contudo, antes de apresentar as palavras de Freire, lembrei-me igualmente de Maurice Tardif e Claude Lessard, na obra “O trabalho docente”. Ali, quando tratam de alguns dilemas enfrentados por este profissional, colocando-nos diante de questionamentos como “onde termina a sua tarefa? O que ele pode fazer para ajudar e apoiar seus alunos? Até onde pode ele ir?” (1); são dilemas que lembram ao sujeito professor que ele é um ser humano, tão sensível ao meio e aos que o cercam quanto os seus alunos, tão relacional quanto eles, e em igual processo de necessária aprendizagem do mundo que o cerca. Um pouco mais adiante os autores sugerem que, portanto, “ensinar é confrontar-se com problemas e dilemas éticos que se tornam ainda mais delicados quando se encontram num contexto de relações face a face” (2). O que é uma verdade, diria, axiológica.

 

Ainda não satisfeitos, Tardif e Lessard nos questionam (meio que nos respondendo): “Quais são os desafios, as significações e as consequências decorrentes do fato de seu objeto de trabalho cotidiano corresponder a seres humanos com os quais instauram relações de diversas modalidades: profissionais, pessoais, afetivas, sociais, culturais, de linguagem, etc. Como professores enxergam os alunos e as relações que estabelecem com eles?” (3). Os desafios são inúmeros, na medida em que cada sujeito constitui-se em um mundo próprio e uma identidade singular; as significações, não menos; as consequências… são inevitáveis quando nos relacionamos com seres que pensam, sentem, reagem; não dá simplesmente para “passar” entre eles, mas pensar, sentir e reagir com e para eles.

 

Finalmente, e encerrando os excertos de Tardif e Lessard, é oportuno lembrar uma passagem onde os autores nos colocam de frente à profissão docente: “Profissão impossível, dizia Freud a respeito da educação; certo, mas ensinar é também a mais bela profissão do mundo: todos aqueles que a exerceram o podem confirmar.” (4). E como é bela! Como nos realiza e nos encanta, quando estamos dispostos a perceber os [nem sempre sutis] avanços mútuos e as contribuições de que fazemos parte. Parece “clichê” quando dizemos que “aprendemos muito com nossos estudantes”, mas àquele que se coloca verdadeiramente como professor, é inevitável não crescer e evoluir, aperfeiçoar-se enquanto profissional e, mais ainda, como ser humano. Não dá para ser o mesmo após o contato frequente com outros seres humanos em um espaço tão privilegiado como o de uma sala de aula.

E neste contexto, e “somente” por isso, sinto-me feliz e realizado após dez anos ininterruptos lecionando na Universidade Estadual de Alagoas, a nossa Uneal. E com a proximidade do encerramento do atual período letivo, só tenho a agradecer aos alunos e alunas, sujeitos singulares e com seus mundos e desejos próprios, com o seu pensar, o seu sentir, o seu reagir; e pela oportunidade de convivência durante este período que se encerra. Aos meus queridos e queridas estudantes de zootecnia, pela oportunidade da convivência harmoniosa. Aos meus queridos e queridas estudantes de pedagogia, pela oportunidade de agradáveis momentos de troca e mútuo aprendizado, em especial a Gilk Abreu, Carla Melo e Edivânia Alves, pela carinhosa expressão com que me tocaram profundamente, a ponto de me provocarem, não sem muita emoção, a materialização desta simplória reflexão, tomando como base e fazendo-me recordar grandes mestres como Freire, Tardif e Lessard. Compartilho, ainda, imagens do presente com que fui agraciado por estes estudantes, cujo símbolo a poeira e o tempo poderão apagar e danificar, mas as palavras e o seu significado o coração e o sentimento jamais me trairão, jamais me ocultarão as lembranças carinhosas das relações oriundas desta profissão, que antes de tudo é relacional e emocional.

 

Já dizia Antoine de Saint-Exupery, em sua obra “O pequeno príncipe”: “_ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. (…) _ Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…”. (5)

 

Finalmente, eis o texto a que me referi, de Paulo Freire, no seu livro “Pedagogia da Autonomia” (6):

 

Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.

Assim como não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina não posso, por outro lado, reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica. Tão importante quanto ele, o ensino dos conteúdos, é o meu testemunho ético ao ensiná-los. É a decência com que o faço. É preparação científica revelada sem arrogância, pelo contrário, com humildade. É o respeito jamais negado ao educando, a seu saber de ‘experiência feito’ que busco superar com ele. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço. É importante que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência. É preciso também que este esforço seja de quando em vez discutido na classe. Há situações em que a conduta da professora pode parecer aos alunos contraditória. Isto se dá quase sempre quando o professor simplesmente exerce sua autoridade na coordenação das atividades na classe e parece aos alunos que ele, o professor, exorbitou de seu poder. Às vezes, é o próprio professor que não está certo de ter realmente ultrapassado o limite de sua autoridade ou não.

 

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REFERÊNCIAS:

1.TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. 4ª.ed., Petrópolis: Vozes, 2008. p.70.

2.Id., Ibid., p.71.

3.Id., Ibid., p.141.

4.Id., Ibid., p.151.

5.SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe (com aquarelas do autor). 48.ed., 43. reimp. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p.72.

6.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 7ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 115-117. (Coleção Leitura).

 

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O que se revela quando se diz¹

8, fevereiro, 2014 Sem comentários

Quando falamos ou escrevemos revelamos de onde somos, em que época vivemos e qual o nosso universo social.

Texto de Eduardo Calbucci²
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A língua, na maioria das vezes, oferece-nos várias possibilidades para dizer praticamente as mesmas coisas. Escolher a forma mais adequada para cada situação, cotejar usos, comparar registros, sempre tendo em mente a riqueza dos processos de variação linguística, é (ou deveria ser) preocupação de todos os falantes, sob o risco de a intercompreensão e a eficiência de comunicação se perderem.

O “ultrapassado” – ao menos em grande parte do universo acadêmico – discurso do certo x errado, fundamentado numa dicotomia tão rígida quanto equivocada, desconsidera que a língua, como sistema que é, merece ser tomada mais como um objeto de estudo do que como um pretexto para normatizações frágeis e, muitas vezes, preconceituosas.

Por exemplo: quando, no começo dos anos 50, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira compuseram um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, o baião Asa branca, alguns puristas podem ter ficado incomodados com o final da quarta estrofe da canção: “Espero a chuva cair de novo / Pra mim voltá pro meu sertão” [grifo nosso]. Afinal, o uso do pronome oblíquo “mim” na posição de sujeito vai de encontro às prescrições dos normativistas, que apregoam o emprego do pronome reto (eu) numa construção como essa.

As explicações sintáticas para essa prescrição vão das mais finas (os pronomes pessoais em português mantêm resquícios da flexão de caso do latim e, por isso, são grafados diferentemente de acordo com sua função sintática) às mais insólitas (todos já ouvimos o descabido “mim não faz nada” ou o politicamente incorreto e descabido “mim é índio”). O fato é que, por mais que haja quem condene o “mim” como sujeito, esse uso não se deixou abalar e continua afirmando sua existência nas ruas.

Manuel Bandeira chegou mesmo a dizer que não havia nada mais “gostoso” do que usar o mim como sujeito de verbo no infinito. Para ele, a expressão “pra mim brincar” deveria ser usada por todos os brasileiros. Em que pese sua filiação modernista, que o levava a prestigiar as variantes populares da língua, até mesmo como reação aos beletrismos de parte da literatura brasileira da virada do século XIX para o século XX, é de elogiar sua percepção aguçada de fenômenos de língua, que o faz privilegiar a espontaneidade em detrimento da “correção”.

A tese de Bandeira é plenamente adequada para explicar o uso dos pronomes em Asa branca. Na canção, o emprego de “eu” no lugar de “mim” tornaria o texto incoerente. O narrador de Asa branca é um retirante que foge da seca. Assim, para aumentar o efeito de “verdade” do texto, optou-se por uma variedade linguística compatível com o universo social desse narrador.

Linguistas de todas as épocas reconhecem que, quando falamos ou escrevemos, dizemos mais do que imaginamos. Na verdade, revelamos de onde somos, em que época vivemos, qual o nosso universo social, como queremos nos relacionar com nossos interlocutores. Isso se dá porque a língua não é neutra; ela encerra valores, crenças, ideologias. É por esse motivo que uma simples escolha lexical pode ter mais peso do que supúnhamos.

Veja-se o caso dos vocativos. Ao referirmo-nos aos nossos interlocutores, interpelando-os diretamente, podemos empregar as mais variadas formas de tratamento: doutorsenhormoçoamigocompanheirocamaradarapazparceiro,manogajomeu irmãoguri, quase todas com suas respectivas flexões femininas. Os exemplos são infindáveis. Acontece que cada forma de tratamento revela muito mais do que se imagina: um “doutor” numa conversa cotidiana pode ser irônico; um “gajo” numa aula de literatura, uma homenagem a Portugal; um “mano” no Rio de Janeiro, uma brincadeira com o falar de São Paulo; um “camarada” num encontro partidário, uma filiação ideológica. Nada é neutro.

Daí, o aforismo do filósofo austríaco Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Quanto maior é a consciência dos falantes sobre essas questões, maior é sua capacidade de controlar, ainda que parcialmente, o que se revela quando se diz.

 

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¹Texto extraído da Seção Ortografia também é gente, na página na Internet da Revista Pessoa  - Revista de Literatura Lusófona. Pode-se acessar o artigo publicado nesta Revista clicando-se aqui.

²Eduardo Calbucci é mestre e doutor em Linguística pela USP. É professor da USP e consultor do Núcleo Educativo da TV Cultura.

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Filmes do Michael Moore

3, fevereiro, 2014 Sem comentários

 

Cineasta e documentarista que tem gerado polêmica com o seu posicionamento contra a violência e o capitalismo selvagem dos Estados Unidos

Michael Moore, cineasta e documentarista estadunidense

Considerando a natureza e a verdade “nua e crua” dos documentários produzidos por Michael Moore, cineasta, documentarista e escritor estadunidense conhecido pela sua postura crítica em relação às grandes corporações, à violência armada, à invasão do Iraque e à hipocrisia dos políticos, resolvi organizar os filmes mais “contundentes” que ele produziu nesta área, para que todos possam conhecê-los e assisti-los. São documentários IMPERDÍVEIS!

 

O primeiro filme trata-se de “Tiros em Columbine“, de 2002, onde Michael Moore investiga o fascínio dos estadunidenses pelas armas de fogo, e questiona a origem dessa cultura bélica, buscando respostas através de visitas a pequenas cidades dos Estados Unidos, onde a maior parte dos moradores guarda uma arma em casa. Entre essas cidades está Littleton, no Colorado, onde fica o colégio Columbine. Lá os adolescentes Dylan Klebold e Eric Harris pegaram as armas dos pais e mataram 14 estudantes e um professor no refeitório.

 

Eis o vídeo no Youtube, completo e legendado:

 

O segundo é “Fahrenheit 9/11“, um documentário de 2004, escrito, estrelado e dirigido por Michael Moore. Fala sobre as causas e consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, fazendo referência à posterior invasão do Iraque, liderada por esse país e pela Grã-Bretanha.

Eis o link no Youtube, com o filme completo e dublado:

http://youtu.be/vhT56WyYyZg

 

O terceiro é “SICKO – SOS Saude“, de 2007, que faz referência ao termo “sick“, que quer dizer “doente” em inglês. O documentário é sobre a saúde sob os aspectos sociais e éticos. Aborda a questão da seguridade social e saúde dos Estados Unidos e as contradições entre a riqueza do país e a má qualidade de vida decorrente de um péssimo serviço de assistência médica pública e privada e a lógica perversa do capitalismo que somente enxerga os lucros das poderosas seguradoras de saúde. Compara o modelo estadunidense com outros, como o canadense, o britânico, o francês e o cubano.

Eis o vídeo no Youtube, completo e legendado:

 

E o quarto e último desta seleção de Michael Moore, é “Capitalismo: uma história de amor“, de 2009, onde o cineasta denuncia a forma escandalosa como alguns magnatas enriqueceram vertiginosamente durante a presidência de George W. Bush, enquanto milhares de cidadãos comuns perderam os seus bens, as suas casas e ficaram em absoluta ruína financeira.

Eis o vídeo no Youtube, completo e legendado:

 

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A falta que faz o ensino da ciência para crianças

24, agosto, 2010 Sem comentários

Unb Agência
Créditos ao final do texto

Pesquisadores reunidos no interior de São Paulo discutem como difundir a ciência no Brasil e defendem que incluir o tema na educação infantil é determinante para garantir pesquisas no futuro
Ana Lúcia Moura – Enviada especial a Sâo Carlos (SP)

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Pelo menos 86 bilhões de neurônios interligados como em uma teia formam o sistema nervoso humano. Mais de 85% dessas conexões neurais formam-se nos primeiros cinco anos de vida. Os neurocientistas sabem disso há mais de uma década. Entendem que as primeiras experiências determinam a capacidade de aprender ao longo da vida. Mas esse conhecimento não trouxe avanços práticos para a educação no Brasil.

É o que apontaram pesquisadores reunidos nesta semana em seminário sobre difusão científica como fonte para a educação. No encontro, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados do campus da Universidade de São Paulo (USP) na cidade de São Carlos, eles afirmaram que a primeira infância ainda é ignorada no sistema educacional brasileiro.

O coordenador de comunicação institucional da UnB, professor Isaac Roitman, lembrou que a capacidade de absorver informações, se não estimulada nessa fase da vida, dificilmente é recuperada mais tarde. “Aqueles que recebem mais estímulos cognitivos na primeira infância chegam à escola em melhores condições de aprender”, explicou. E defendeu a educação científica já na primeira infância.

“A ciência é o melhor caminho para se entender o mundo. Ela desenvolve habilidades, define conceitos, estimula a criança a observar, questionar, investigar e entender de maneira lógica os seres vivos, o meio em que vivem e os eventos do dia a dia”, afirma. “Mostrar a ciência aos pequenos, que já são cientistas por natureza, é garantir o interesse pelas pesquisas no futuro”.

Roitman destacou que a educação científica tem recebido alguma atenção nos últimos dez anos e enumerou alguns projetos de ensino de ciências a alunos do ensino fundamental e médio. Um exemplo é o Mão na Massa, que acontece no próprio Centro de Difusão Científica e Cultural de São Carlos, onde ocorreu o encontro. “Mas para os pequenos não há nada. Imaginem quantos talentos não desperdiçamos só aí”, indagou o professor, que apresentou durante o encontro a revista DARCY, da UnB, como exemplo de projeto voltado para estudantes do ensino médio.

A professora Ivone Mascarenhas, da USP São Carlos, organizadora do seminário e coordenadora do projeto de divulgação científica Ciência na Web foi além. “Não negligenciamos a ciência somente na primeira infância, quando ela representa um potencial a ser explorado, mas também quando está pronta e acabada. Nossos melhores pesquisadores não ficam aqui. Não há nada para eles. A maioria está fora do Brasil”, afirmou.

FUTURO - A editora-executiva da revista Ciência Hoje, Alicia Ivanissevich, defendeu pesquisas, desenvolvimento e implementação de atividades paradidáticas para meninos e meninas de zero e cinco anos como jogos e brincadeiras que despertem a curiosidade da criança para a ciência e a estimule a pensar criticamente. “Temos de investir na formação das crianças desde muito cedo. Os países que estão no topo do ranking dos melhores em educação constroem educação científica desde que a criança começa a se relacionar”, disse.

Ampliar o ensino infantil e incluir o despertar para a ciência não é o único caminho apontado pelos especialistas para difundir a ciência. Capacitar professores, valorizar a educação enquanto política pública, aproximar cientistas de jornalistas e investir em projetos de divulgação da ciência, principalmente pela internet, são outras ferramentas consideradas importantes. “Tratamos nossos alunos hoje como tratávamos há 50 anos”, criticou Isaac Roitman. “Precisamos de uma escola que seja atrativa, que possa atrair para a ciência e a arte”, defendeu a secretária de Educação do município de São Carlos, Lourdes Moraes.

VIOLÊNCIA - A falta de atratividade das escolas foi, inclusive, apontada pela professora Lúcia Williams do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos e coordenadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência, como uma das causas das agressões no ambiente escolar. “Há um problema grave de violência nas escolas e ela não ocorre só em consequência das relações estabelecidas entre pais e alunos e entre os próprios alunos, mas entre escola e alunos”, disse.

Lúcia detalhou, durante o encontro, o conceito de bullying, descreveu de que maneira ele ocorre e apresentou pesquisas desenvolvidas nas universidades brasileiras e no exterior sobre o tema. “Os dados mostram que o bullying acontece em todos os colégios, mas muitos deles fazem vista grossa, o que contribui ainda mais para essa prática”, comentou.

Ela criticou a maneira como os jornais tratam os fatos relacionados à violência nas escolas e defendeu uma abordagem científica em matérias também de educação. “A mídia nos ajuda, mas se torna um complicador quando trata a violência escolar de maneira sensacionalista, sem responsabilidade, espalhando medo”, afirmou. “É importante que o jornalista se preocupe sempre em falar com base em pesquisas, ver qual o referencial científico. No caso do bullying, é importante mostrar como acontece e os efeitos que o provoca e, fundamentalmente, insistir na prevenção”, argumentou.

O jornalista Denis Burgierman, que trabalhou por dez anos na revista Super Interessante e atualmente tem um projeto de divulgação científica pela internet, o Webcitizen, enfatizou que a ciência não é apenas um tema de cobertura jornalística. “A ciência é um método e está em todos os lugares, na economia, na política, na saúde, na educação. É possível divulgar ciência em qualquer área do jornalismo”, explicou. “A ciência está em tudo. Sem a ciência e a tecnologia não teríamos acesso a simples serviços”, completou Alicia Ivanissevich, da Ciência Hoje.

Ela destacou as dificuldades de se divulgar ciência no Brasil e defendeu a difusão do conhecimento. “No Brasil temos uma missão redobrada quando falamos em divulgação científica, porque não temos tradição de leitura, faltam professores capacitados, poucos cientistas valorizam a divulgação de seus trabalhos e a mídia não vê a ciência como um tema lucrativo”, explicou. “Se levarmos a ciência para as escolas de ensino infantil, criaríamos um pensamento crítico que dispensaria em série de esforços futuros que hoje estamos discutindo”, concluiu.

FONTE: UnB Agência. Disponível em http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3762. Acesso em 24 ago. 2010.
Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada. (UnB Agência)

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